Terceira idade se torna público cada vez mais presente em eventos culturais
14/05/2012 04:36COM TEMPO E DINHEIRO, MAIORES DE 60 ANOS COBRAM MAIS OPÇÕES

A negativa de um plano de saúde em patrocinar o projeto Chá no cinema, que a produtora Capital Cultural realiza mensalmente em Belo Horizonte, dá a dimensão do preconceito que ronda a chamada terceira idade no Brasil. Vítima de desatenção generalizada, aos poucos, no entanto, o segmento vem se firmando, chamando a atenção do mercado pelo crescente potencial de consumo nos setores de lazer e cultura.
"O segmento cresce em cerca de 650 mil pessoas ao ano, com perspectiva de atingir de 30 milhões a 32 milhões em 2025", contabiliza o professor Claudio Felisoni, presidente do Programa de Administração de Varejo (Provar) e do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo (Ibevar), ambos com sede em São Paulo.
Foi graças a uma sessão vespertina de cinema, no Belas Artes Liberdade, do Bairro de Lourdes, região Centro-Sul de Belo Horizonte, que a empresária Adriana Almeida do Carmo despertou para a criação do Chá no Cinema, que sua empresa realiza desde 2009. A próxima edição, no Boulevard Shopping, será no dia 25, quando, além do café da manhã e de uma palestra sobre incontinência urinária, será exibido o documentário José e Pilar, sobre o relacionamento maduro entre o Nobel José Saramago e sua mulher, Pilar del Rio, dirigido por Miguel Gonçalves Mendes.
"São cerca de 200 pessoas por sessão, com público eclético que vai desde internos de asilos a senhoras que gostam de tomar café ou chá, além do cinema", comemora Adriana, cujo projeto tem patrocínio garantido apenas até o fim do ano, via leis estadual e federal de incentivo à cultura. Prova de que ainda é a maior diversão na faixa, o cinema continua atraindo a terceira idade, especialmente nas sessões da tarde.
"Além de vir aqui no Belas, costumo ir também ao Pátio Savassi", diz o geólogo suíço Nicolas Poller, de 76 anos, que comprou ingresso para assistir, sozinho, na quarta-feira, ao filme A dançarina e o ladrão, do diretor espanhol Fernando Trueba. Nascido em Zurique e criado em Berna, há 40 anos ele trocou de país, mostrando-se satisfeito com a mudança. "A Suíça é diferente do Brasil, mas gosto de ambos. Aqui em Belo Horizonte não falta opção de diversão", acrescenta Nicolas, que, além das sessões de cinema, frequenta cafés da Savassi, onde aproveita as manhãs para se dedicar à leitura.
Considerado o crescimento dos países europeus, atualmente em crise, o professor Claudio Felisoni classifica de inusitado o fato de o Brasil vir a se tornar, em pouco mais de uma década, a quinta maior população com mais de 60 anos do mundo. "Do ponto de vista interno, na última década houve um fenômeno que certamente impactou essa faixa etária: a distribuição de renda. Nada menos de 30 milhões de pessoas saíram das faixas D e E (com renda de menos de quatro salários mínimos) para uma nova posição (entre quatro a 10 salários mínimos)", explica. Ele salienta o fato de a mudança ter atingido parte significativa da terceira idade, com renda até então sabidamente mais baixa.
A mudança de patamar, de acordo com o professor, significaria uma renda maior entres os idosos, que deverão atingir a idade máxima de 130 anos nas próximas décadas, conforme previsões científicas. "Assim, aos 60 anos não teríamos atingido sequer a metade da vida", prevê Claudio Felisoni, lembrando que graças aos progressos da medicina o ser humano passou a desfrutar a vida com mais jovialidade, o que está obrigando o mercado a se adaptar à nova realidade.
"Hoje, somos pessoas muito diferentes daquelas que vivenciaram outras condições em épocas passadas. As possibilidades de mercado, portanto, são inúmeras", esclarece Claudio, salientando o fato de as pessoas irem se qualificando mais no decorrer de sua trajetória, tornando-se, por isso mesmo, mais exigentes. "O que leva o mercado a se qualificar, à medida que a população envelhece. Veja o exemplo do mercado europeu, que é mais exigente, mais demandante. As empresas brasileiras têm de se preparar para essa realidade próxima, em cujo bojo também estarão as questões culturais e de lazer."
Em busca da qualidade de vida
Em companhia da irmã Marta Mendonça, de 74 anos, a pedagoga Maria Auxiliadora Costa, de 66, diz que a terceira idade carece de maiores opções de lazer e cultura em BH. "Faltam bibliotecas, cinemas de bairro, parques", lista ela, que mora no Planalto, região Norte da capital. "Leio muito, faço caminhadas e também rezo", confessa ela, que sai normalmente sozinha, apesar de os dois filhos costumarem acompanhá-la na hora da diversão.
Residente em Brumadinho, na região metropolitana, com apartamento na capital, a professora Ana Maria Mendes, de 68, faz o mesmo. "Gosto de ir ao cinema, teatro e restaurantes", diz ela. Já a psicóloga Nilva Rocha Fernandes, de 67, frequenta as salas de exibição da cidade, normalmente em companhia de amigos e familiares.
"Belo Horizonte tem melhorado muito nos últimos anos. Basta procurar para encontrar um bom programa cultural", afirma Nilva, destacando o Circuito Cultural Praça da Liberdade, onde garante haver bons museus para visitar. Professora aposentada, Ione Scapolatempore também não fica sem programa cultural na capital. "Além do cinema, vou a espetáculos de teatro e aos concertos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Aqui a gente carece apenas dos bons espetáculos teatrais do eixo Rio-São Paulo", cobra a aposentada.
TERCEIRA IDADE QUER LAZER E CONHECIMENTO
Sensíveis à nova realidade social e demográfica brasileira, as universidades mineiras mantêm projetos destinados à população na faixa acima dos 60 anos. A PUC Minas desenvolve a Universidade Aberta ao Idoso e a UFMG tem o Projeto Maioridade, ambos abertos a toda comunidade. Em agosto começa nova turma da UFMG, com 70 vagas. A única exigência é que o candidato tenha 60 anos ou mais. "O nosso objetivo é promover o envelhecimento saudável, com qualidade de vida", esclarece a professora e coordenadora Marcella Guimarães, lembrando que o Projeto Maioridade trabalha com quatro temas ao longo do ano: envelhecimento e saúde; movimento e qualidade de vida; aspectos sociológicos e sociais; e cotidiano e cultura. Nesse último, além de concerto comentado, há visitas a exposições e museus, aulas de cinema e informações sobre o uso da internet no dia a dia. Os interessados podem buscar informações no site da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa:
www.fundep.ufmg.br.
Outra instituição com serviços voltados para a terceira idade no estado é o Serviço Social do Comércio de Minas Gerais (Sesc-MG). Com 44 unidades fixas de trabalho e 17 unidades volantes, o Sesc criou a Gerência de Trabalho Social do Idoso, subordinada à Superintendência de Cultura e Educação, para atender o público idoso de forma sistemática, promovendo assistência por meio de ações relacionadas com os pilares da entidade, como educação, saúde, cultura, lazer e meio ambiente.
Segundo Maria Juanita Godinho Pimenta, responsável pelo setor, o trabalho se dá por meio da formação de grupos de convivência, para minimizar o isolamento social, e a promoção do envelhecimento saudável, com qualidade de vida. Nesse sentido, são desenvolvidas ações socioeducativas destinadas à promoção da participação social e do exercício da cidadania, além da autoestima, estímulo à reconstrução da autoimagem e da autonomia do idoso. Expressões artísticas; artes plásticas, artesanato e fotografia; biblioteca e literatura; cinema e vídeo e atividades físicas são algumas das áreas de atividade do Sesc-MG no segmento.
SEM GARANTIA LEGAL
Independentemente da aprovação recente da Lei Geral da Copa, que prevê a meia-entrada para idosos, o que se discute em Brasília, nos últimos anos, é a uniformização da Lei da Meia-Entrada, já que ela existe em versões diferenciadas em vários estados da Federação.
Mesmo com a tramitação de inúmeros projetos de lei voltados para o segmento na Câmara Municipal de Belo Horizonte, a única legislação (Lei 6.845/1995) que dispunha sobre a venda de ingressos em cinemas, cineclubes, teatros, eventos esportivos, espetáculos circenses e musicais para a população idosa do município foi revogada oito anos depois de sua aprovação.
Entre os projetos de vereadores que atualmente tramitam na Câmara Municipal estão o que instituem os Jogos Municipais da Terceira Idade (20311/2011), o Programa Centro Dia do Idoso (1909/2011) e a Política Municipal do Idoso (330/2009), além do que prevê a contratação de estabelecimento esportivo e de lazer para estimular o idoso à prática esportiva (1449/2011).
FONTE: https://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_8/2012/05/13/ficha_cinema/id_sessao=8&id_noticia=53002/ficha_cinema.shtml
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